{"id":8816,"date":"2019-03-18T02:44:07","date_gmt":"2019-03-18T02:44:07","guid":{"rendered":"http:\/\/nueva.razacomica.cl\/?p=8816"},"modified":"2019-03-21T15:49:13","modified_gmt":"2019-03-21T15:49:13","slug":"abram-alas-as-sementes-vencerao-o-asfalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/2019\/03\/18\/abram-alas-as-sementes-vencerao-o-asfalto\/","title":{"rendered":"Abram alas: as sementes vencer\u00e3o o asfalto"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"align-right\"><sup>[<a href=\"http:\/\/nueva.razacomica.cl\/2019\/03\/18\/abran-alas-las-semillas-venceran-el-asfalto\/\">Pincha aqu\u00ed<\/a> para leer la versi\u00f3n en espa\u00f1ol]<\/sup><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Estamos em 2019, no m\u00eas de mar\u00e7o. O cen\u00e1rio \u00e9 o Brasil no momento em que se avizinha a homenagem do Dia Internacional da Mulher. Nesse ano, em particular, o digno tributo de dimens\u00e3o internacional \u00e0 mem\u00f3ria de in\u00fameras mulheres trabalhadoras, que em diversos momentos da hist\u00f3ria do mundo \u201cmoderno\u201d tiveram a coragem de se irromperem contra os des\u00edgnios explorat\u00f3rios que as oprimiam e exploravam, coincide com a data da maior festa popular do pa\u00eds, o Carnaval. Sem negarmos o tom contestador que os bailes, os blocos e bandas e os trajes, eventualmente ilustram, a proximidade destas datas, a de luta das mulheres com a do festival, causa uma sensa\u00e7\u00e3o estranha e complexa para a milit\u00e2ncia, pois altera momentaneamente o car\u00e1ter arrebatador do protagonismo que o dia 8 de mar\u00e7o (8M) veio adquirindo ao longo dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Faz apenas alguns meses que o Brasil promulgou uma nova legisla\u00e7\u00e3o de combate ao \u201cass\u00e9dio\u201d (nome popular dado ao crime de \u201cimportuna\u00e7\u00e3o sexual\u201d, agora devidamente tipificado), alimentando a expectativa de milhares de foli\u00e3s de que nesse carnaval haveria uma condi\u00e7\u00e3o de brincadeira mais saud\u00e1vel e respeitosa, com a promessa de maior liberdade e seguran\u00e7a para os corpos femininos, apesar do momento de acirramento dos conflitos ideol\u00f3gicos pelo pa\u00eds e do destacado aprofundamento do conservadorismo. Muito embora a imprensa tenha alardeado a exist\u00eancia dessa nova norma nos dias iniciais do evento, nada mais foi analisado ou comentado acerca do poss\u00edvel impacto da lei sobre o comportamento dos homens durante a festa, deixando passar a chance de conduzir um debate essencial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem embargo, segundo dados recentemente divulgados por diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o feminic\u00eddio \u2013 caracter\u00edstico da viol\u00eancia de g\u00eanero \u2013 vem batendo recordes hist\u00f3ricos no pa\u00eds: foram registrados, em todo o Brasil, 1.173 casos em 2018 (12% acima do ano anterior, quando o Brasil j\u00e1 concentrava 40% desse tipo de crime na Am\u00e9rica Latina, segundo informa\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos &#8211; OEA). Al\u00e9m disso, pesquisas de opini\u00e3o mostram que as mulheres permanecem amedrontadas e violentadas no seu cotidiano, quando, por exemplo, v\u00e3o utilizar o transporte p\u00fablico para ir e para voltar do trabalho, ou quando, em outro exemplo, est\u00e3o num singelo final de semana com a fam\u00edlia em casa, e o c\u00f4njuge resolve ultrapassar os limites da rela\u00e7\u00e3o e da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa indiferen\u00e7a que caracteriza o Brasil contempor\u00e2neo revela que as reinvindica\u00e7\u00f5es dos movimentos de mulheres permanecem urgentes e que n\u00e3o basta a simples cria\u00e7\u00e3o de leis e outras san\u00e7\u00f5es ou instrumentos punitivos se as culturas do machismo e da misoginia, bases do patriarcado, n\u00e3o forem enfrentadas diretamente todos os dias, por cada um, e em todos os lugares. Para tanto, a r\u00e1pida e assustadora ascens\u00e3o dos discursos de \u00f3dio na sociedade, que apresenta tend\u00eancias de regress\u00e3o a um grau de civiliza\u00e7\u00e3o t\u00edpica do per\u00edodo feudal da humanidade, precisa ser denunciada, problematizada, e, com intensiva e permanente luta de mulheres e de seus parceiros (dotados de consci\u00eancia cr\u00edtica), controlada e superada. N\u00e3o se trata de uma bandeira exclusivamente feminista, mas sim de uma necessidade pol\u00edtica geral, das mulheres e dos homens, que deve ser contextualizada na din\u00e2mica social mais ampla.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vejamos como se d\u00e1 a ruptura desses limites categ\u00f3ricos, do problema particular para o universal, ao relembrarmos o atentado que tirou a vida de Marielle Franco, vereadora da cidade do Rio de Janeiro, que tinha sido rec\u00e9m-eleita \u00e0 \u00e9poca, e que vitimou tamb\u00e9m seu motorista Anderson Gomes, tendo como \u00fanica sobrevivente a sua assessora Fernanda Chaves, ocorrido h\u00e1 um ano no bairro popular do Est\u00e1cio. N\u00e3o podemos considerar como uma triste coincid\u00eancia o crime ter ocorrido no dia 14 desse mesmo m\u00eas dedicado ao respeito \u00e0s mulheres, minutos depois de a vereadora ter participado de uma reuni\u00e3o pol\u00edtica de mulheres negras no centro da cidade, e poucos dias depois de ela ter denunciado uma s\u00e9rie de abusos de agentes p\u00fablicos de seguran\u00e7a e ter discutido na plen\u00e1ria da C\u00e2mara de Vereadores com um homem que tentava atrapalhar a sua fala a respeito desses assuntos, ao que Marielle, altiva, respondeu: \u201cN\u00e3o serei interrompida!\u201d [note]<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Da7dqCqEJmA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja no YouTube<\/a>[\/note].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Marielle representava diversas posi\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo, ao se pronunciar a favor do respeito e da dignidade no tratamento para com as popula\u00e7\u00f5es moradoras das favelas e periferias; ao cobrar do poder p\u00fablico o fornecimento de infraestrutura adequada de escolas e de creches para que as mulheres pudessem trabalhar seguras de que seus filhos estariam se desenvolvendo como cidad\u00e3os; ao denunciar as mortes da juventude negra alvo do exterm\u00ednio promovido pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a oficiais. A escritora e documentarista Eliane Brum, em coluna escrita de forma magistral para o El Pa\u00eds, sintetiza bem essa leitura da pessoa: \u201cMarielle Franco acolhia em seu corpo todas as minorias esmagadas durante 500 anos de Brasil. Seu corpo era um mostru\u00e1rio, uma instala\u00e7\u00e3o viva, da emerg\u00eancia dos Brasis historicamente silenciados\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel a sordidez da conforma\u00e7\u00e3o social que permite (e com isso naturaliza) a execu\u00e7\u00e3o de uma pessoa como Marielle, que nunca havia sofrido uma amea\u00e7a sequer, mas logo p\u00f4de ser \u201capagada\u201d da vida p\u00fablica por apenas come\u00e7ar a causar o mesmo tipo de inc\u00f4modo que o amigo e padrinho na vida politica, Marcelo Freixo, se disp\u00f5e a realizar h\u00e1 pelo menos dez anos, ainda que sob constantes amea\u00e7as de assassinato, n\u00e3o consumadas talvez por raz\u00e3o de sua escolta oficial, mas ainda assim, n\u00e3o consumadas. O que se pretende destacar aqui \u00e9 a \u201coportunidade\u201d de viver que se d\u00e1 para um \u201ctipo\u201d de militante dos direitos humanos (homem, branco, classe m\u00e9dia \u2013 isto \u00e9, n\u00e3o-pobre) em contraste ao total desprezo \u00e0 vida de outro \u201ctipo\u201d de indiv\u00edduo com a mesma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas representante de outra parcela da realidade social, aquela que est\u00e1 \u00e0 margem do sistema e contra a qual se alimenta e estimula um \u00f3dio extremo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, o Brasil (ou parte dele) tem se mantido chocado com a apura\u00e7\u00e3o desse assassinato (que \u00e9 feminic\u00eddio, mas que tamb\u00e9m \u00e9 genoc\u00eddio, e \u201cdemocrac\u00eddio\u201d): \u00e0s v\u00e9speras de completar um ano, a pol\u00edcia local efetivou a pris\u00e3o dos executores da vereadora e, a partir das investiga\u00e7\u00f5es, os relacionaram com grupos paramilitares que atuam como fac\u00e7\u00f5es criminosas na cidade do Rio de Janeiro, as chamadas \u201cmil\u00edcias\u201d. Outras informa\u00e7\u00f5es ainda apontam liga\u00e7\u00f5es desses homens com parte da elite politica que saiu vencedora das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es gerais no pa\u00eds, notavelmente com a fam\u00edlia do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Algumas autoridades j\u00e1 admitiram que parte da demora dos investigadores em avan\u00e7ar ou em anunciar os resultados dos trabalhos se justificou pelo interesse de evitar influenciar o processo eleitoral do ano passado, o que levanta a pertinente d\u00favida de quem seria realmente prejudicado pela revela\u00e7\u00e3o da autoria do brutal assassinato que, at\u00e9 hoje, tem sua relev\u00e2ncia, como fato pol\u00edtico, questionada publicamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A morte de Marielle n\u00e3o foi suficiente para saciar o apetite voraz dessa estrutura do necropoder (para citar Achille Mbembe) como o pr\u00f3prio deputado Marcelo Freixo refletiu em entrevista recente ao portal da Carta Capital: \u201cNo dia seguinte \u00e0 morte de Marielle, havia um grupo que queria mat\u00e1-la novamente, por n\u00e3o aceitar que uma mulher negra, pobre e da favela estar na C\u00e2mara dos Vereadores e ser homenageada no mundo inteiro\u201d.\u00a0Isso, mais uma vez, evidencia a dimens\u00e3o do desafio, que deixa de ser uma quest\u00e3o de defesa de direitos identit\u00e1rios e passa a ser um problema sens\u00edvel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da democracia (que se encontra em risco desde o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, outro caso institucionalizado de viol\u00eancia de g\u00eanero). Pois, ao passo que minorias (mulheres, negros, comunidade LGBTQI, trabalhadores do campo, etc.) s\u00e3o desconsideradas, amea\u00e7adas e, no limite, eliminadas (mesmo quando ocupam lugar de grande visibilidade e com relativo poder de a\u00e7\u00e3o, como era a posi\u00e7\u00e3o de Marielle), prevalece a normaliza\u00e7\u00e3o do racismo, do machismo, da homofobia, da explora\u00e7\u00e3o de classe, enfim, da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para as mulheres e para os seus companheiros torna-se incontorn\u00e1vel o imperativo de permanecer na luta e conquistar a condi\u00e7\u00e3o de pleno respeito \u00e0 vida de mulheres, e de negras, e de pessoas de origem pobre, e de povos ind\u00edgenas, enfim, de todas as minorias. \u00c9 desta forma que o atentado contra as vidas de Marielle, Anderson (v\u00edtimas fatais) e Fernanda (sobrevivente), representa um fato social que afronta o esp\u00edrito genu\u00edno das jornadas de mar\u00e7o, e que, por isso, deve ser politizado ontem, hoje e sempre, inclusive ocupando espa\u00e7o na maior vitrine do carnaval brasileiro, o desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Foi na passarela que leva \u00e0 Pra\u00e7a da Apoteose que o enredo vencedor da Mangueira celebrou e coroou a mem\u00f3ria do colosso Marielle, ajudando a plantar novas sementes do seu prop\u00f3sito, e nutrindo a busca por justi\u00e7a e igualdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de a homenagem do Dia Internacional da Mulher estar relacionada ao que ocorreu no passado, os atos pol\u00edticos que observamos ao longo do m\u00eas de mar\u00e7o continuam acontecendo e somando milh\u00f5es de bravas mulheres, no Brasil e no mundo, nos festejos e nos protestos. Independente da forma, a unidade de todas e todos se constr\u00f3i por uma necessidade sufocante de vencer os instrumentos institucionais de opress\u00e3o e de viol\u00eancia que permanecem no presente, e pela convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel superar a l\u00f3gica tr\u00e1gica, selvagem e cruel, que nos afasta do ideal de humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marielle vive! Carolina Maria de Jesus vive! Mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois, ao passo que minorias (mulheres, negros, comunidade LGBTQI, trabalhadores do campo, etc.) s\u00e3o desconsideradas, amea\u00e7adas e, no limite, eliminadas (mesmo quando ocupam lugar de grande visibilidade e com relativo poder de a\u00e7\u00e3o, como era a posi\u00e7\u00e3o de Marielle), prevalece a normaliza\u00e7\u00e3o do racismo, do machismo, da homofobia, da explora\u00e7\u00e3o de classe, enfim, da barb\u00e1rie.<\/p>\n","protected":false},"author":171,"featured_media":8803,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[1266,323,458,1264,531,1265],"taxonomy\/multi-autores":[],"taxonomy\/archivo-especiales":[],"class_list":["post-8816","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-tupi-or-not-tupi","tag-bolsonaro","tag-brasil","tag-latinoamerica","tag-marielle","tag-politica","tag-portugues"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/171"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8816"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8816\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8816"},{"taxonomy":"multi-autores","embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/taxonomy\/multi-autores?post=8816"},{"taxonomy":"archivo-especiales","embeddable":true,"href":"https:\/\/razacomica.cl\/sitio\/wp-json\/wp\/v2\/taxonomy\/archivo-especiales?post=8816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}