Entrevista a Evandro Cruz Silva: “Nuestra contribución al arte es romper la expectativa de qué es ser un escritor negro”

Damos continuidade à nossa série sobre a literatura brasileira contemporânea e sua interseção com a América Latina — uma iniciativa desenvolvida pela Dra. em literatura Ellen María Vasconcellos e pelo nosso journalista, apenas um rapaz latino-americano, Erick Valenzuela Bello.
Continuamos con nuestra sección de escrituras brasileñas contemporáneas y su encuentro con América Latina, una propuesta desarrollada por la Dra. en literatura Ellen Vasconcellos y nuestro reportero, apenas un cabro latinoamericano, Erick Valenzuela Bello.
Hoje, 3 de julho, é comemorado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial no Brasil. Por isso, consideramos importante destacar Evandro Cruz Silva como o autor do mês; a partir de sua perspectiva sobre a classe média negra urbana e as políticas de cotas, ele explica que a ascensão social não imuniza o indivíduo contra o racismo. Pelo contrário, ela o expõe a novas formas de violência institucional.
Hoy 3 de julio en Brasil se conmemora el Día Nacional de Combate a la Discriminación Racial. Es por ello que nos parece importante proponer como autor de este mes a Evandro Cruz Silva, quien desde su mirada sobre las clases medias negras urbanas y las políticas de cuotas, explica que la ascensión social no inmuniza contra el racismo. Por el contrario, expone al individuo a nuevas formas de violencia institucional.
Em seu romance “O Embranquecimento”, publicado pela Editora Patuá, ela se debruça sobre essas categorias e revela como as feridas raciais fazem parte do cotidiano — um dos legados coloniais que atravessam o Brasil e toda a região.
En su novela, “O Embranquecimento” edita por “Patuá”, profundiza estas categorías y deja entrever cómo las heridas raciales son parte del cotidiano y una de las herencias coloniales que atraviesa Brasil y a toda la región.
Convidamos você a ler esta conversa sobre literatura e formas de racismo, considerando a tradução e o diálogo como caminhos para a descolonização.
Les invitamos a leer esta conversación sobre literatura y racismos, pensando en la traducción y el diálogo como caminos para la descolonización.
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Evandro Cruz, sociólogo e escritor brasileiro negro do sudeste do Brasil, relata sua ascensão social a partir de uma origem popular e periférica. Sua trajetória acadêmica foi viabilizada por políticas de ações afirmativas para afrodescendentes no ensino superior. Inicialmente, sua relação com a literatura era distante; ela surge como válvula de escape do estresse acadêmico, especialmente durante um intercâmbio no México em 2020, quando, isolado pela pandemia, passa a ler e escrever intensamente, “Ali, por 2019, 2020, me cresceu pouco a vontade de conhecer o México, porque eu comecei a ler Roberto Bolaño, como forma de desestressar os meus assuntos acadêmicos. Acho que foi mais ou menos por influência do Bolaño que eu já entrei no projeto de pesquisa», comenta Evandro.
Evandro Cruz, sociólogo y escritor afrodescendiente del sureste de Brasil, relata su ascenso social desde un entorno de clase trabajadora en la periferia urbana. Su trayectoria académica fue posible gracias a políticas de acción afirmativa dirigidas a afrodescendientes en la educación superior. Inicialmente, su relación con la literatura era distante; esta surgió como una vía de escape para el estrés académico, especialmente durante un programa de estudios en el extranjero en México en el año 2020, cuando, aislado por la pandemia, comenzó a leer y escribir intensamente. «Por aquel entonces, entre 2019 y 2020, creció en mí el deseo de conocer México, ya que había empezado a leer a Roberto Bolaño para aliviar el estrés de mi trabajo académico. Me doy cuenta de que, en gran medida, fue gracias a la influencia de Bolaño que comencé mi proyecto de investigación», afirma Evandro.
Dessa experiência nasce seu primeiro livro de contos, focado na solidão, chamado “Praia artificial”, e posteriormente um romance, “O Embranquecimento”, ambos publicados pela Editora Patuá. No ano de 2025, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhor Romance de Estreia de 2024 com o livro “O Embranquecimento”, além de outros reconhecimentos, “Esse livro – Praia Artificial – saiu, eu consegui voltar para o Brasil depois, peguei uma passagem, voltei. E ele foi bem aceito, né, pela crítica. E isso me proporcionou duas coisas: A primeira foi ganhar no edital de romance que originou o livro ‘O Embranquecimento’, que é o meu segundo livro. E acho também que isso, meio que criou uma onda de popularidade que me permitiu ir ganhando coisas. No ano 2021, eu ganhei o prêmio da revista Forbes. No meio de 2020, eu ganhei o prêmio de ensaios da Serrote», comenta o escritor.
De esta experiencia surgió su primera colección de relatos, “Praia Artificial” y, posteriormente, la novela “O Embranquecimento”; ambas publicadas por la editorial Patuá. En el año 2025, fue finalista del Premio São Paulo de Literatura en la categoría de mejor primera novela lanzada el año 2024 “O Embranquecimento”, entre otros reconocimientos. “Cuando salió ese libro, – Praia Artificial –, tuvo una buena acogida por parte de la crítica, y eso me abrió dos posibilidades: primero, ganar la beca para la novela que dio origen al libro ´O Embranquecimento’, mi segundo libro. También creo que generó una especie de ola de popularidad que me permitió seguir obteniendo reconocimientos. El año 2021, gané un premio de la revista Forbes. A mediados de ese mismo año, obtuve el premio de ensayo “Serrote”, comenta el escritor.
A chamada “literatura negra” brasileira contemporânea se diferencia de fases anteriores por deslocar o foco da miséria e das necessidades básicas para dramas existenciais e de inadequação de classe. Escritores negros atuais, em sua maioria, não escrevem mais sobre fome ou extrema pobreza, mas sim sobre experiências de transição social, pertencimento, liberdade e identidade. Os personagens frequentemente enfrentam dilemas de continuidade ou ruptura com suas origens familiares, refletindo sobre ancestralidade e distanciamento da realidade vivida por gerações anteriores, “Se eu pensar, escritores negros contemporâneos, suas necessidades não são as necessidades do nível da fome, né assim. Se pensar em fazer um caminho, não é que vá, na Carolina Maria de Jesus – autora do livro ‘Quarto de despejo’ –, passando pelo Paulo Lins – autor do romance ‘Cidade de Deus’ – e chegando agora nos escritores do século 21. Nos nossos escritos contemporâneos, o passar fome, né, as necessidades mais imediatas, elas são legados de gerações passadas, né? Mas todos os personagens desses escritores contemporâneos têm avós que passaram fome, né, e pais que foram muito necessitados”, explica Evandro.
La “literatura negra” brasileña contemporánea se diferencia de etapas anteriores al desplazar el foco de atención desde la marginalización y las necesidades básicas hacia los dramas existenciales y las cuestiones de disparidad de clase. En su mayoría, los escritores negros actuales no escriben sobre el hambre o la pobreza extrema; más bien, exploran experiencias de transición social, pertenencia, libertad e identidad. Sus personajes a menudo se enfrentan a dilemas sobre si mantener los vínculos con sus orígenes familiares o romper con ellos, reflexionando sobre la ascendencia y la distancia entre sus propias vidas y las realidades que vivieron generaciones anteriores. “Si pensamos en los escritores negros contemporáneos, sus necesidades no son del tipo asociado a la hambruna. Si observamos la trayectoria —desde Carolina Maria de Jesus, autora del libro ‘Quarto de despejo’, pasando por Paulo Lins, autor de la novela ‘Cidade de Deus’, hasta los escritores del siglo XXI, vemos que, en nuestra literatura actual, pasar hambre, necesidades más inmediatas, es un legado de generaciones pasadas, ¿verdad? Sin embargo, los personajes creados por estos escritores contemporáneos tienen abuelos que pasaron hambre y padres que afrontaron grandes privaciones”.
A violência, antes retratada de forma brutal e física, agora aparece também como violência simbólica: constrangimentos, inadequação e exclusão social não explícita,»No meu caso, e no de outros colegas, a ideia de violência simbólica começou a se tornar mais presente. É aquela que não fere ou elimina fisicamente, mas que constrange e anula o outro. É a violência da inadequação, de não dominar certos códigos culturais ou de sentir-se incomodado sem saber verbalizar a raiz do conflito. Essa abordagem está presente na literatura de várias pessoas. Para mim, o exemplo mais bem acabado é ‘Marrom e Amarelo’ de Paulo Scott, que me serviu de inspiração quase plagiária», diz o autor.
La violencia, representada anteriormente en términos físicos y brutales, se manifiesta ahora también como violencia simbólica: sentimientos de incomodidad, sensación de no encajar y exclusión social implícita, “En mi caso y en el de otros colega, el concepto de violencia simbólica cobró mayor relevancia. Es un tipo de violencia que no hiere físicamente ni elimina a la persona, sino que provoca vergüenza y anula al otro. Es la violencia de no encajar, de no dominar ciertos códigos culturales o de sentirse inquieto sin lograr articular la raíz del conflicto. Este enfoque aparece en la obra de diversos autores. Para mí, el ejemplo más logrado es «Marrom e Amarelo», de Paulo Scott, que me sirvió de inspiración hasta rozar el plagio», afirma el autor.

Extrato do livro “O Embraquecimento”:
“Na sala de aula, as garotas brancas chegavam carregando ecobags com a frase ‘pele negra, máscaras brancas’, ilustrações de Angela Davis, o rosto de Carlos Marighella. Falavam de suas avós negras e parentes imemoriais, inverificáveis, mas certamente indígenas. Gostavam de dançar maracatu, jogar capoeira e demonstrar estar à vontade com a minha ‘vivência’.
As pessoas do campus usavam a palavra “vivência” quando se referiam a alguma situação de racismo, que elas pressupunham fazer parte da minha biografia apenas por eu ser a única pessoa preta com quem elas conversavam naquele curso desproporcionalmente branco. Do mais absoluto nada, colegas ao meu lado discursavam por minutos a fio sobre situações que não vivi.
Essas pessoas pouco faziam para resolver quaisquer questões que elas mesmas comentavam. Em suas cabeças, o antirracismo era uma espécie de sistema de difusão de notícias horríveis, e mais nada. Ao mesmo tempo, eu via ali uma oportunidade. Percebi que era boa em cavar piedade de brancos universitários culpados. Eu aproveitava. Era uma espécie de pequena reserva de mercado que disputava o posto de interlocutora universitária oficial de uma certa experiência de sofrimento. Ao final de cada atividade, uma roda se formava ao meu redor para saber mais, tecer elogios e repetir: ‘Que barra, Macária, que pena, mas muito forte sua vivência’.
Depois eu voltava sozinha para casa. O olhar esquisito de algum homem nojento que fica encarando mulher em transporte público, dez minutos de caminhada entre duas esquinas escuras da Zona Leste de São Paulo. Chegava, depositava a mochila em minha cama, olhava, mais uma vez, para a ‘redenção de Cam’ e voltava a estudar, até a dosagem de Stagivile 100mg esgotar seu efeito e meu corpo desabar sobre a mesa com cadernos, livros e pinturas do século XIX”. (p.55-56)
Extracto del libro «O Embraquecimento»:
“En la sala, las chicas blancas llegaban cargadas de bolsas ecológicas con la frase ‘piel negra, máscaras blancas’, ilustraciones de Angela Davis y el rostro de Carlos Marighella. Hablaban de sus abuelas negras y de parientes inmemoriales, imposibles de verificar, pero sin duda indígenas. Les gustaba bailar maracatú, practicar capoeira y demostrar que se sentían a gusto con mi ‘vivencia’.
La gente del campus utilizaba la palabra ‘vivencia’ cuando se refería a alguna situación de racismo, que ellas daban por sentado que formaba parte de mi biografía solo por ser la única persona negra con la que hablaban en aquel curso desproporcionadamente blanco. De la nada más absoluta, mis compañeros a mi lado disertaban durante minutos y minutos sobre situaciones que yo no había vivido.
Esas personas hacían muy poco por resolver las cuestiones de las que ellas mismas hablaban. En sus mentes, el antirracismo era una especie de sistema de difusión de noticias horribles, y nada más. Al mismo tiempo, yo veía allí una oportunidad. Me di cuenta de que se me daba bien despertar la compasión de los universitarios blancos con remordimientos. Lo aprovechaba. Era una especie de pequeño nicho de mercado en el que competía por el puesto de portavoz universitaria oficial de una determinada experiencia de sufrimiento. Al final de cada actividad, se formaba un círculo a mi alrededor para saber más, lanzarme elogios y repetir: ‘Qué duro, Macária, qué pena, pero qué fuerte es tu vivencia’.
Después volvía sola a casa. La mirada extraña de algún asqueroso que se queda mirando a las mujeres en el transporte público, diez minutos a pie entre dos esquinas oscuras de la Zona Este de São Paulo. Llegaba, dejaba la mochila en mi cama, miraba, una vez más, la ‘redención de Cam’ y volvía a estudiar, hasta que la dosis de Stagivile de 100 mg agotaba su efecto y mi cuerpo se desplomaba sobre la mesa con cuadernos, libros y pinturas del siglo XIX”. (p.55-56)
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Ascensão Social e Inadequação
A literatura negra recente aborda a ascensão social como tema central, explorando o desconforto e a desconexão dos personagens com suas famílias de origem e com o novo meio social. Esse deslocamento gera dramas da classe média, como dúvidas existenciais e busca de pertencimento, mas sem abandonar a experiência da violência racial, que persiste mesmo após a ascensão, “A maioria de nós vai escrever sobre ascensão social, vai escrever especificamente sobre o que é, e aí, depende, eu tenho uma certa dificuldade de usar tão claramente o conceito de ascensão social porque tem que ver se nós somos mais ricos mesmo do que as nossas gerações anteriores. Acho que o jogo ainda está jogado. Mas é claramente uma literatura de transição de classe é uma literatura que vai olhar para a própria realidade e vai se sentir muito desconectada da realidade familiar.
La literatura negra reciente aborda la movilidad social como tema central, explorando la incomodidad y la desconexión que sienten ciertos personajes respecto a sus familias de origen y su nuevo entorno social. Este desplazamiento configura un drama de clase media: una existencia monótona en busca de pertenencia, pero que no renuncia a la experiencia de la violencia racial, la cual persiste incluso tras haber ascendido de estatus, “La mayoría de nosotros pensamos en la movilidad social, reflexionando específicamente sobre lo que conlleva y de qué depende y albergamos una certeza. Resulta difícil aplicar con precisión el concepto de movilidad social, pues cabe señalar que no somos necesariamente más ricos que las generaciones anteriores. No obstante, se trata claramente de una literatura de transición de clase; una literatura que evoca nuestra propia realidad, pero que se percibe profundamente desconectada de nuestra realidad familiar.
Ou seja, de uma volta à África, de uma volta às raízes africanas, uma volta às matrizes religiosas africanas, uma volta para uma vida mais simples, ou até uma literatura que tenta retratar uma vida mais simples, mas cujo autor não participa mais. Ou seja, uma autoria que está longe daquela realidade simples a ser traduzida, digamos assim, para o leitor, para o leitor sudestino, que ainda hoje, né, é de maioria branca e maioria feminina. Então a gente está quase sempre escrevendo para mulheres brancas no Brasil”, adiciona Evandro.
En otras palabras, de un retorno a África, de un regreso a las raíces africanas, a las tradiciones religiosas africanas, a una vida más sencilla o a una literatura que intenta retratar esa vida más simple; una vida en la que el autor ya no participa. El autor es alguien que hace tiempo se alejó de la realidad sencilla que busca transmitir al lector, un público objetivo que, digámoslo, es predominantemente blanco y femenino. De hecho, en Brasil casi siempre estamos escribiendo para mujeres blancas”, agrega Evandro.
Diversificação Editorial e Narrativa
O aumento de pequenas editoras e a redução dos custos de publicação permitiram a multiplicação de autoria e narrativas negras, inclusive com tiragens menores e públicos mais segmentados. Isso possibilitou o surgimento de obras que fogem do padrão esperado de “literatura da miséria”, ampliando o espaço para poetas, cronistas e romancistas negros que abordam temas diversos, inclusive fantasia. Essa diversificação editorial contribui para a diversidade de experiências e perspectivas na literatura contemporânea.“E, dentro desse universo de narrativa, você tem mais espaço para escrever coisas que não são as esperadas. Então aumentou muito o número de escritores negros sobre outras coisas, romances, literatura fantástica e tudo mais. Quando você ascende para a classe média, você não abandona o perigo das violências que você sofria só porque você é negro. E você ganha nas violências na inadequação simbólica, então, para além de lidar com o fato de que você não sabe se comportar nos novos lugares, você não tem os usos e costumes, – você não sabe usar os talheres –. Conseguindo correr o risco permanente de ser baleado pela polícia.
El aumento del número de pequeñas editoriales y la reducción de los costos de publicación han propiciado la proliferación de obras escritas por autores negros y centradas en narrativas negras, aunque sea con tirajes más reducidos y para públicos más específicos. Esto abre la puerta a obras que rompen con los clichés habituales de la llamada “literatura de la pobreza”, ampliando las posibilidades para que poetas, cronistas y novelistas negros exploren temas diversos, incluida la fantasía. Dicha diversificación editorial contribuye a una pluralidad de experiencias y perspectivas en la literatura contemporánea,“Y, dentro de este universo narrativo, hay más espacio para crear lo inesperado. Esto ha incrementado considerablemente el número de escritores negros que se dedican a otros géneros, como la novela, la ficción especulativa, entre otros. Aunque la movilidad social no te protege de la violencia dirigida contra ti simplemente por el hecho de ser negro. A esto se suma la violencia de la inadecuación simbólica: el miedo a no saber cómo desenvolverse en estos nuevos espacios, a no dominar las normas y costumbres sociales —o incluso a no saber utilizar los cubiertos—, junto con el riesgo permanente de recibir un disparo de la policía.
Você tem esse duplo tipo de sofrimento, que é social. Ele é típico de economias emergentes, que levam as suas populações colonizadas a um patamar superior por meio do consumo, sem resolver suas questões raciais, né? É, então você tem ao mesmo tempo a inadequação e a persistência da violência. Eu acho que esse jogo, né, entre inadequação e persistência da violência é panorama sintético do que é a literatura contemporânea brasileira do ponto de vista dos escritores” o escritor explica.
Existe ese doble sufrimiento, de tipo social. Es algo típico de las economías emergentes que llevan a sus poblaciones anteriormente colonizadas a un estrato social superior a través del consumo, sin resolver, no obstante, las cuestiones raciales, ¿verdad? Se experimenta simultáneamente una sensación de no pertenencia y la persistencia de la violencia. Creo que esta dinámica, esta tensión entre la sensación de inadecuación y la persistencia de la violencia, resume el panorama de la literatura brasileña contemporánea desde la perspectiva de los escritores negros”, explica el escritor.
Ellen María Vasconcellos (EMV) Bom, Evandro, eu quero perguntar por que você escolheu, no romance “O Embranquecimento”, por que você escolheu uma narradora mulher?
Ellen María Vasconcellos (EMV): Bueno, Evandro, me gustaría preguntarte, ¿por qué elegiste una narradora para la novela “O Embranquecimento”?
Evandro Curz (EC): Ah, para ser divertido, né? Tem uma coisa, do erro do meu primeiro livro, que é erro bem de homem e bobinho, é que eu escrevi livro de contos, 10 contos, e que não tinha nenhuma personagem mulher relevante, assim, nem acho que a gente percebe essas coisas porque os livros viram papel. Eu falei: ‘Nossa, que bobagem». E eu fiquei com pé na cabeça de que, se eu fosse escrever outra narrativa, eu escreveria pela perspectiva de uma mulher. E, quando eu comecei a escrever esse romance, eu comecei a escrevê-lo pela primeira cena mesmo, assim, pela cena de abertura, apesar de não ter continuado até o fim. E também ajudou a fazer um personagem que não fosse muito espelho do meu ego, sabe.
Ah, simplemente por diversión, ¿sabes? Hubo algo en mi primer libro —un error típico y tonto de hombre—: escribí una colección de diez relatos sin un solo personaje femenino relevante. Creo que ni siquiera nos damos cuenta de estas cosas en el momento, porque los libros simplemente se convierten en papel. Pensé: «Vaya, qué tontería». Así que me propuse mentalmente que, si escribía otra obra narrativa, lo haría desde la perspectiva de una mujer. Y cuando empecé a escribir esta novela, comencé directamente por la primera escena —la escena inicial—, aunque no continué de corrido hasta el final. También me ayudó a crear un personaje que no fuera simplemente un reflejo de mi propio ego, ¿sabes?
Erick Valenzuela Bello (EVB): Eu queria saber o que aparece quando você utiliza as ferramentas da literatura, como romance, mas quando o lugar de fala muda, né? Como quando falamos do dandismo, no caso da população afrodescendente que utiliza as roupas dos brancos, né? Aquela metáfora de que muda, né? Acontecem coisas novas, aparecem coisas que não tínhamos visto antes, tipo uma sorte entre aspas de “antropofagia da literatura”.
Erick Valenzuela Bello (EVB): Quería saber qué surge cuando utilizas herramientas literarias como la novela pero el lugar de enunciación cambia, ¿verdad? Como cuando hablamos del dandismo específicamente, de poblaciones afrodescendientes que visten prendas asociadas a la gente blanca. Esa metáfora de la transformación: surgen cosas nuevas, aparecen elementos que no habíamos visto antes; es una especie de, entre comillas, “antropofagia literaria”.
EC Tá, eu acho que uma coisa do ponto de vista é muito interessante, Erick, porque tem texto do James Baldwin, chamado «Sobre o problema do escritor negro», se eu não me engano, nossa. Eu esqueci o nome do livro, enfim, tem um conjunto de ensaios, desses ensaios chama o problema do escritor de, que é um ensaio que eu gosto muito, porque ele começa colocando uma premissa que é muito interessante, que é: a grande questão sobre ser escritor negro é que o escritor negro existe enquanto problema literário, o escritor branco não existe. Né? Então, muito se debate sobre o que é ser escritor. E isso faz com que você se torne escritor negro, entende? Você é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do campo literário. Né?
EC: Me parece muy interesante el aspecto del punto de vista, Erick. Hay un texto de James Baldwin, “El problema del escritor negro”, si no me equivoco… creo que olvidé el título del libro. En fin, hay una colección de ensayos y uno de ellos trata sobre el problema del escritor; es un ensayo que me gusta mucho porque parte de una premisa muy interesante: el gran problema de ser un escritor negro es que el escritor negro existe como un problema literario, mientras que el escritor blanco no. ¿Verdad? Así que existe un gran debate sobre lo que significa ser escritor. Y ese proceso te convierte en un “escritor negro”, ¿entiendes? Eres simultáneamente el sujeto y el objeto del campo literario.
Ou seja, você está produzindo ao mesmo tempo em que você está fazendo parte de debate. Porque, justamente porque você não é sujeito universal, né, como é o sujeito branco e masculino, a única maneira de você participar do debate público é se colocando também como objeto.
En otras palabras, produces obra al tiempo que formas parte del debate. Porque precisamente porque no eres el «”sujeto universal”, como el sujeto blanco y masculino. La única manera de participar en el debate público es posicionándote también como objeto.
Se a literatura tem como universal «o branco masculino», como a literatura afrodescendente se consegue desvincular do fetiche da exotização?
Si la literatura trata al «hombre blanco» como el estándar universal, ¿cómo puede la literatura de personas de afrodesdendientes liberarse del fetichismo de la exotización?
EC: Cara, é que é jogo complicado, né? Porque tem assim, se pensar, por exemplo, no Machado de Assis, quando ele escrevia, como poderia escrever no tempo dele? Ele não podia ser negro; se ele fosse identificado como negro, ele não seria escritor. Por isso que se descobriu recentemente que Machado de Assis era negro, porque isso é uma informação que funciona no século XXI e não na virada do século XIX para o século XX, né? Porque, na virada do século 19 para o século XX, não existia essa figura de escritor negro.
EC: Es un terreno complicado, ¿verdad? Porque, si piensas en Machado de Assis, por ejemplo, ¿cómo podía escribir en aquella época? No podía ser negro; si se le hubiera identificado como negro, no habría sido escritor. Por eso el hecho de que Machado de Assis fuera negro solo salió a la luz recientemente: porque es un dato que cobra sentido en el siglo XXI, no en el paso del siglo XIX al XX, porque, en esa transición entre los siglos XIX y XX, la figura del escritor negro no existía.
Você escrevia sobre os negros, mas os negros não escreviam, né? Hoje em dia você já pode dizer que o Machado de Assis era intelectual negro que observava a sociedade do Rio de Janeiro do século 19, do século 20. Certo sentido, acho que os escritores negros brasileiros são pouco herdeiros do Machado de Assis nesse ponto; assim, eles sempre vivem no papel de observado e observador. Ou seja, você tem um ponto de vista que era o que eu tinha falado; para o outro, ele que é esse ponto de vista muito único, que é todo mundo estar um pouco surpreso com a sua presença no papel de intelectualidade.
Se escribía sobre las personas negras, pero las personas negras no escribían, ¿verdad? Hoy en día, se puede decir que Machado de Assis fue un intelectual negro que observaba la sociedad de Río de Janeiro en los siglos XIX y XX. En cierto sentido, creo que los escritores negros brasileños son, hasta cierto punto, herederos de Machado de Assis en este aspecto; siempre habitan los roles tanto de observado como de observador. En otras palabras, existe ese punto de vista que mencioné antes: esa perspectiva única en la que todo el mundo se sorprende un poco por tu presencia en el ámbito de la intelectualidad.
Mas, ao mesmo tempo, o que você pode fazer é jogar com essa expectativa. Acho que jogar com a expectativa, porque, em certo sentido, essa é a nossa contribuição para a arte, né? É quebrar a expectativa do que é o escritor negro. É bagunçar um pouco esse negócio. Se a gente aderir à expectativa, a gente meio que está traindo o presente que a arte nos dá, que é a criatividade.
Pero, al mismo tiempo, lo que puedes hacer es jugar con esa expectativa. Creo que jugar con las expectativas, porque, en cierto modo, esa es nuestra contribución al arte. Consiste en romper las expectativas sobre lo que es un escritor negro. Se trata de sacudir un poco las cosas. Si simplemente nos ajustamos a las expectativas, estamos traicionando en cierto modo el regalo que nos ofrece el arte: la creatividad.
Tipo, qual é o sentido exatamente de escritor negro que obedece às expectativas do que é ser escritor negro? E aí, do outro lado, isso você perguntou da exotização, aí é muito mais cotidiano, né? É muito mais cotidiano e é um trabalho de paciência, porque não há nada que você possa fazer que vá acabar com a exotização que as pessoas têm do que ir ao negro na cabeça delas. E isso é uma coisa frequente.
Es decir, ¿qué sentido tiene un escritor negro que simplemente obedece a las expectativas sobre lo que significa ser un escritor negro? Y luego, por otro lado, en cuanto a tu pregunta sobre la exotización, ese es un asunto mucho más cotidiano, ¿no? Es una cuestión del día a día y requiere paciencia, porque no hay nada que puedas hacer para acabar con la forma en que la gente exotiza a las personas negras en su mente. Y sucede con frecuencia.

Extrato do livro «O embranquecimento».
“Muitas vezes me perguntei quem eu seria naquela imagem paradigmática de família inter-racial brasileira. Às vezes me identificava com a mulher ao centro, o fruto da mestiçagem que aparece num destaque quase divino. Uma mulher negra, mas de pele clara, alguém capaz de gerar uma vida ainda mais branca, a prova cabal de que o embranquecimento está por vir, que só nos falta mais esforço, mais um parto.
Mas confesso que, outras vezes, não me identificava com nenhum personagem e nas noites em que esperava o guarda da biblioteca me expulsar para fechar todas as portas, imaginava-me sendo Brocos: escolhendo as tintas, observando cores, inventando cenários de mudança radical”. (p. 65)
Extracto del libro «O embranquecimento».
“Muchas veces me he preguntado quién sería yo en esa imagen paradigmática de una familia interracial brasileña. A veces me identificaba con la mujer del centro, fruto del mestizaje que aparece con un protagonismo casi divino. Una mujer negra, pero de piel clara, alguien capaz de engendrar una vida aún más blanca, la prueba fehaciente de que el blanqueamiento está por llegar, de que solo nos falta más esfuerzo, un parto más.
Pero confieso que, otras veces, no me identificaba con ningún personaje y, en las noches en las que esperaba a que el vigilante de la biblioteca me echara para cerrar todas las puertas, me imaginaba siendo Brocos: eligiendo las tintas, observando los colores, inventando escenarios de cambio radical”. (p. 65)
EMV: Bom Evandro, vou te fazer a última pergunta. Você colocou na Macária, que eu achei muito interessante de você trazer, e não problematizar, simplesmente de você colocar como características dela, que é a sexualidade, né? Ela vive trisal ali, né? E eu já estou colocando esse nome, que não é colocado no, o que eu acho interessante justamente isso, né? Não precisa ser nomeado, nomeado família, mãe, pai, até o final essa cena é muito bonita também, né? Mas você coloca isso para Macária, e você coloca também, muito sutilmente, o fato de ela estar sempre automedicada, né? Ela está o tempo inteiro ali, sob o efeito de algum tipo de remédio, droga, enfim. Então queria que você falasse um pouquinho sobre essas escolhas, para a personagem, e por quê, né?
EMV: Bueno, Evandro, te voy a hacer la última pregunta. En el personaje de Macária, me ha parecido muy interesante que hayas hablado de su sexualidad convertirlo en un problema, simplemente presentándolo como una de sus características. Ella vive en un trío allí. Y ya estoy mencionando ese nombre, que no se menciona y eso es precisamente lo que me parece interesante, ¿no? No hace falta nombrarlo, ni a la familia, ni a la madre, ni al padre; hasta el final, esa escena también es muy bonita. Pero le das eso a Macária, y también incluyes, de forma muy sutil, el hecho de que siempre se automedica, ¿no? Está todo el tiempo bajo los efectos de algún tipo de medicamento, droga, en fin. Así que me gustaría que hablaras un poco sobre esas decisiones para el personaje.
EC: Eu considero que o auge da liberdade é a capacidade de não ter que se explicar. Eu te digo, olha, a grande coisa do do é que as pessoas pedem para você se justificar a todo momento, né? E aí tem uma diferença de gênero e raça muito importante, assim. As pessoas pedem para as mulheres se explicarem muito mais do que para os homens. Isso é uma coisa muito patente, mesmo. Se eu fosse uma mulher, eu estaria sendo atacado agora. A minha DM ia estar cheia de idiotas me ameaçando, mandando foto minha andando aqui na praia. O que acontece com as minhas colegas intelectuais, que trabalham com o público.
EC: Considero que la máxima expresión de la libertad es la capacidad de no tener que dar explicaciones. Te diré una cosa: lo peor de todo esto es la gente te pide que te justifiques constantemente, ¿no? Y ahí hay una diferencia de género y raza muy importante. A las mujeres se les pide que se expliquen mucho más que a los hombres. Esto es algo muy evidente de verdad. Si yo fuera mujer, ahora mismo me estarían atacando. Mi bandeja de mensajes directos estaría llena de idiotas amenazándome, enviándome fotos mías paseando por la playa. Es lo que les pasa a mis colegas intelectuales, que trabajan con el público.
E, então, a primeira coisa da sexualidade, é interessante ver alguém assumir a sua sexualidade sem explicar, né? Pessoas explicando a própria sexualidade, e aí tem uma coisa de geração, tenho 33 anos. Não tem nada mais desinteressante do que alguém falando longamente em público sobre as suas decisões pessoais e afetivas. Então isso me parecia uma coisa boa de colocar, né, essa sexualidade não explicada. E a segunda coisa era fazer um certo paralelo entre drogadições,. Sei lá, ela é filha de alcoólatra, e de alcoólatra ela está sempre topada. Como muitos de nós, estamos sempre topando. E, da mesma maneira como, e aí é interessante porque eu coloquei o pai para explicar por que ele é alcoólatra, mas ela não sabe muito bem por que que ela é dopada. Eu queria que ela não entendesse muito, mas essa seria paralela entre o pai e ela.
Y, bueno, lo primero sobre la sexualidad: ¿no es interesante ver a alguien asumir su sexualidad sin dar explicaciones? Ahí entra en juego una cuestión generacional, yo tengo 33 años. No hay nada más aburrido que alguien hablando largo y tendido en público sobre sus decisiones personales y afectivas. Así que me pareció algo bueno que incluir, ¿no?, esa sexualidad sin explicar. Y lo segundo era establecer cierto paralelismo entre las adicciones. No sé, ella es hija de un alcohólico, y como hija de un alcohólico, siempre está dopada. Como muchos de nosotros estamos siempre dopados. Aquí lo interesante es que yo hice que el padre explicara por qué es alcohólico, pero ella no sabe muy bien por qué está drogada. Quería que ella no lo entendiera muy bien, pero ese sería el paralelismo entre el padre y ella.



